Decidi compartilhar com vocês partes da minha monografia da disciplina História da Arte Contemporânea, com ênfase na Arte Baiana, e apresentar uma artista plástica fantástica: Yêdamaria.

Yêdamaria me transmitiu muita tranqüilidade durante a nossa conversa em sua casa em Lauro de Freitas. A harmonia das cores utilizadas em suas telas, sensibiliza a agrada aos meus olhos logo no primeiro instante. Leveza e sofisticação nas mesas postas, trazendo a imagem da cultura baiana, das celebrações familiares, do romantismo.
As cores vibrantes das frutas aguçam o paladar, as Yemanjás compõem o cenário lúdico e os barcos nos fazem viajar no tempo e pelo mundo enquanto Yêdamaria conta histórias interessantes dos seus 75 anos de idade. Mulher, negra, nordestina, porém uma vencedora. História de vida que conheci ao ser presenteada com o seu livro, Yêdamaria. Um grande presente!
“Basta a sensibilidade para sentir nas gravuras de Yêdamaria, além do valor artístico, uma grande destreza em seus “alimentos”, ou melhor, naquilo que é essencial ao ser humano, a artista consegue mostrar-se completa, consciente, madura. Artista e obra, contemple esta e você chegará àquela.”
Maria Helena O. Flexor
MEU ENCONTRO COM YÊDAMARIA…
Yêdamaria atribuiu a D. Theonila, sua mãe, o seu interesse pela arte e pelas cores. Ao fazer uma reflexão sobre a sua pintura, Yêdamaria se recorda da sua infância, dos caprichos e cuidados da mãe ao cuidar da casa, das louças inglesas, copos e cálices de cristal. Ela afirma que tudo isso contribuiu para o que ela é hoje. Iniciava nesta fase o despertar pela arte vista com olhos de criança.
O incentivo para que Yêdamaria iniciasse a sua carreira de pintora vinha não só de sua mãe, mas de amigos e professores, que já haviam percebido a veia artística que existia nela.
Entrou na Escola de Belas Artes, se formou e desde então não parou mais de trabalhar. Pintar é a sua sina. Hoje ela não tem mais a mesma produção de décadas atrás, mas diz orgulhosa que trabalha até hoje, com prazer.
Com muita disposição me mostrou as telas que fazem parte de sua coleção particular, falou brevemente sobre a fase dos barcos, das sereias e Yemanjás, que simbolizam o sincretismo, a expressão crucial da Bahia, cantada em prosa, em verso, no teatro e na música.
Ao chegar nos Estados Unidos, suas obras foram classificadas como arte medíocre. Alegavam que com estes temas ela não poderia fazer mestrado, então ela teve que mudar. Ao fazer seus serviços domésticos percebeu que ali havia um mundo que poderia ser explorado por ela. Um simples ovo na gordura da frigideira era motivo de inspiração, e a partir daí iniciou a sua fase gastronômica, das mesas postas com classe e sofisticação (herança das lembranças de sua mãe e sua infância) e das refeições diárias e triviais. Além disso, o choque da culinária baiana com a americana também chamava a sua atenção e a envolveram durante este período em que morou nos EUA.
Hoje suas mesas não têm mais comidas, apenas o glamour, a beleza e o capricho da organização para uma mesa posta para receber amigos em ocasiões especiais, românticas, tropicais, entre outros estilos.
Não é fácil encontrar telas de Yêdamaria em Salvador. Parte das suas obras estão em Brasília, em São Paulo e fora do Brasil, em diversas partes do mundo.
O livro Yêdamaria, um sonho da artista que finalmente foi realizado, produzido a pouco mais de um ano, porém somente no dia 23 de novembro de 2007, em comemoração à Semana da Consciência Negra, foi lançado em Brasilia na galeria Thomas Jefferson, que é parceira da artista desde 1983.
“Viver é uma arte, e é maravilhoso.”
Yêdamaria
YÊDAMARIA, MULHER –DIGNIDADE.
A artista plástica Yêda Maria Corrêa de Oliveira é uma “mulher-dignidade”. Aos 75 anos de idade com uma história de vida repleta de lutas e grandes conquistas.
Ela transpira dignidade nas suas obras e nos dias que vive em Salvador. “Yêdamaria é desses temperamentos dispostos a ultrapassar qualquer obstáculo que se apresente à sua frente. Como mulher negra, soube bem cedo o que lhe aguardava na sua caminhada para a ascensão e a afirmação do seu talento”, diz Emanoel Araújo, diretor e curador do Museu Afro Brasil.
E os tais obstáculos jamais a desencorajou. Sofreu com a discriminação mas não guardou rancor. Yêda afirmava que era preciso persistir. Não se intimidar. Antes de ganhar a bolsa para fazer mestrado nos Estados Unidos, negaram a participação de seus trabalhos numa exposição. Persistiu.
No começo dos anos 70, Yêdamaria foi a primeira estudante negra da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia a sair para intercâmbio. Chegou de mansinho em terras estrangeiras.
“Na terra dos outros a gente pisa devagar”, falava ela. No alto da experiência que já colheu, a artista continua a ver a vida em cores vivas. “Viver é uma arte, e é maravilhoso”, diz Yêdamaria.
“Os trabalhos de Yêdamaria passam uma realidade impressionante. Algumas de suas sereias retratadas são cultuadas de verdade, até mesmo com uso de velas.”
Rai Santana Trindade
YÊDAMARIA, O LIVRO.
Atuante nas artes plásticas baianas há cinco décadas, a artista plástica e professora Yêdamaria têm uma presença discreta, mas marcada pela constância e coerência. Sua trajetória, desconhecida de muitos baianos, ganhou um belo registro no livro Yêdamaria, publicação luxuosa do Museu Afro Brasil e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
O projeto do livro, uma espécie de biografia artística, era acalentado por Yêdamaria há cerca de 12 anos. Queria registrar um pouco de sua história, reunir seus principais trabalhos. “Já estava perdendo as esperanças. A Bahia me deu régua e compasso, mas as coisas aqui são difíceis”, afirma Yêdamaria. O tom não é de lamúria. Ao contrário, diz a artista, sente-se privilegiada. “Fiz muita coisa, viajei bastante, fui à África representar meu país. Morrerei sem mágoas da vida”.
Na apresentação do livro, Emanoel Araújo, diretor do Museu África Brasil, afirma que Yêda sempre o impressionou “pelo temperamento forte e por seu absoluto silêncio em relação à sua carreira profissional”. As primeiras telas de Yêdamaria datam de meados da década de 50, dando início à fase em que ela pintava barcos e que durou cerca de 12 anos. À esta seguiram-se sereias e Iemanjás, e a absorção de técnicas como litografia, colagens e gravuras. Neste período, final dos anos 70, Yêda fez mestrado em Arte Estúdio na Illinois State University, apontado pelos críticos como fundamental em sua carreira.
Ainda nos Estados Unidos ela inicia sua longa, colorida e delicada fase de natureza morta, com destaque para a gastronomia e para as mesas postas, que perdura até hoje.
Num belo texto incluído na publicação, o escritor Ildásio Tavares destaca que Yêdamaria “devolve-nos o prazer prazeroso de olhar um quadro e se apaixonar por ele, pois sua arte explora o que o artista sempre teve de melhor, o poder da sedução, da sedução direta”, anota. O livro traz, ainda, uma seleta de artigos biográficos e analíticos, assinados por nomes como Wilson Rocha, Carlos Eduardo da Rocha, Rai Santana Trindade, Mário Cravo Júnior e Consuelo Pondé de Sena.
A seleção de imagens, com vários exemplos de pinturas (guaches, óleo sobre tela) e trabalhos com colagens, litografia, gravura e desenho, é primorosa.
“Acho que meu trabalho fala da Bahia, do povo daqui, da minha raça, as flores, as frutas, o colorido, ainda acho que não há festa mais bonita do que a de Iemanjá. Até mesmo as mesas, já vi algumas maravilhosas nas casas baianas”, observa a artista.
“Yêdamaria transcende as limitações do tema, pois suas naturezas-mortas exaltam a própria vida e expressam o seu amor pela arte.”
Juarez Paraíso
AS OBRAS DE YÊDAMARIA.
Seu temperamento forte e decidido é citado por parte dos amigos que relatam histórias e relembram momentos desfrutados na presença da artista, e criticam, no melhor sentido da palavra, às suas obras.
José Carlos Carpinam diz, “Desde a fase dos guaches, elaborados com a gestualidade espontânea dos primeiros planos, que chegavam muito perto do devaneio geometricamente livre, de fato, ela sempre se deixou impressionar por uma pintura criada entre a figuração e a abstração – a pintura óleo densa, de cores contrastantes, opacas e cadenciadas por grafismos marcando ritmos, criando formas repetidas como reflexo de planos tensos”.
Embora dominando diversas técnicas, sua projeção internacional se evidencia mais por meio da pintura e da gravura. Nesses cinqüenta anos de carreira, Yêda encarou desafios em diversas fases de sua vida, e encontrou nelas diversas temáticas para suas obras revelando expressões de sensibilidade e criatividade.
Durante o tempo que ela viveu na Ribeira, bairro de Salvador, conheceu pescadores e suas fantásticas histórias e lendas. Daí surgiu o seu interesse em pintar barcos e velas. Seu olhar é aguçado e atraído pelas carcaças dos barcos que avistava na península Itapagipana. Esta fase, que durou 12 anos, rendeu ao acervo de Yêdamaria em torno de 200 telas.
Entre 1967 e 1968 surge a temática das sereias. Este momento é marcado não só pela transição dos barcos para sereias, mas pela utilização de novos materiais, tintas plásticas, colagens, revestimentos de resina e o uso de técnicas mistas. Nesta etapa as cores se tornam mais vibrantes e as formas mais diluídas.
Em 1977, Yêdamaria foi para os Estados Unidos, com bolsa de estudo para fazer mestrado pela Fulbright-Laspau. E marcando este período americano sofrido, conheceu novas técnicas, explorando ao máximo seus recursos plásticos, misturando-os.
Ainda nos EUA, iniciou os trabalhos “gastronômicos”. Explorou o trivial culinário norte americano pintando milk-shakes e hambúrgueres. Algumas pessoas achavam que era uma crítica aos EUA, mas Yêda garante que apenas pintava a realidade, o que era trivial e rotineiro naquele país, tão distante da sua saudosa Bahia.
Houve também um período curto em que a artista pintou com romantismo e nostalgia figuras humanas em paisagens, talvez um reflexo da saudade do calor humano do Brasil. Foram poucos estes trabalhos, porém significativos.
“O acentuado gosto por cores baianas e brasileiras e a inconfundível técnica traduzida pelo firme desenho na definição de temas me impressionaram como uma real expressão de modernidade”, diz John P. Dwyer no seu relato no livro Yêdamaria.
CARACTERISTICAS DA PINTURA DE YÊDAMARIA
• Figuração e abstração;
• Pintura a óleo densa;
• Cores contrastantes, opacas e cadenciadas por grafismos;
• Figuração buscando retratar a raiz da sua ancestralidade africana;
• Suas obras nos anos 70 foram criadas com recortes e elementos emblemáticos de rígida simetria. Tinham forte influência POP.
• Suas telas expressam momentos vivos e vibrantes, como em uma fotografia.
• Influência pós moderna, apelo sensorial.
• As obras de Yêdamaria tem influência marcante de Cézanne.
“ Uma artista que merece admiração e respeito.
Seu trabalho ao longo de muitos anos se caracteriza pela seriedade com que tem sido realizado, pela ausência do ruisoso aparato de elogio fácil em torno do seu nome, pelo estudo contante, pela dedicação sem limites à arte que é a razão de ser de sua vida.
(…) Yêdamaria partiu levada pela necessidade de aprender e experimentar e ao regresso nos trouxe novas realizações na difícil arte da gravura, abrindo caminhos. Yêdamaria vem criando uma obra das mais sérias e importantes, uma obra que permanecerá.”
Jorge Amado
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12 maio 2008, 13:03
06 outubro 2009, 6:02
http://www.ecoterrameioambiente.ning.com
http://www.artenatvcomdeborafontes.com.br
artista plastica Debora vive para arte, meio ambiente e índios. Suas pinturas marca uma época
convidada para expor em Louxenburgo, já tem exposição em Toulouse, USA entre outros…
20 março 2010, 7:23